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Carro voador do Elon Musk é uma inovação de verdade?

Carro voador do Elon Musk é uma inovação de verdade?

O carro voador do Elon Musk saiu da ficção e apareceu numa base da SpaceX em McGregor, no Texas, em outubro de 2026. Na apresentação do novo Tesla Roadster, o carro subiu por uma estrutura de cabeça para baixo, saltou e voou por alguns instantes, girando no ar por cima de outros veículos estacionados. Por trás desse carro voador existe uma discussão menos visível e muito útil para quem empreende, sobre o que uma empresa decide patentear e o que prefere manter em segredo.

A produção está prevista para 2028 e o modelo apresentado ainda é um protótipo, segundo a cobertura da MotorTrend. Mesmo assim, o carro voador da Tesla já serve como um bom caso para entender patentes, novidade e segredo industrial.

Como funciona o carro voador do Elon Musk

O carro voador combina dois sistemas, um de sucção e outro de propulsão a gás, distribuídos em três versões do Roadster.

Na versão Performance, o carro voador ainda fica no chão. Ela tem quatro ventiladores elétricos na traseira e saias que descem da lateral do carro para vedar a parte de baixo. Com isso os ventiladores retiram o ar sob o veículo e criam uma pressão negativa que gruda o carro no chão, o que ajuda nas curvas em alta velocidade.

A Thrust soma a esse sistema um tanque de nitrogênio de 200 litros, guardado em pressão muito alta, e quatro propulsores de gás frio, tecnologia usada em foguetes da SpaceX. A promessa é sair de zero a 96 km/h em menos de um segundo.

A Rocket, vendida apenas por convite e com um único assento, recebe um segundo tanque e chega a 600 litros de gás e dez bicos. Os que ficam atrás das rodas apontam para baixo e levantam o carro, os do nariz controlam a direção e os traseiros empurram para frente. Foi essa versão que voou na apresentação, e é ela que transforma o Roadster em carro voador de fato, ainda que por poucos segundos, já que os tanques se esvaziam rápido.

O que uma patente pode proteger num carro voador

Uma patente pode proteger o jeito específico como a Tesla resolveu cada problema técnico do carro voador. A ideia geral de um carro que gruda no chão ou que salta com jatos de gás fica de fora, porque a lei exige novidade.

No Brasil, a Lei da Propriedade Industrial, a Lei 9.279/1996, diz no artigo 8º que uma invenção só pode ser patenteada se cumprir três requisitos. Ela precisa ser nova, ter atividade inventiva, ou seja, não ser uma solução óbvia para um especialista da área, e ter aplicação industrial. Novidade, pelo artigo 11, significa que a solução não pode estar no estado da técnica, que é tudo o que já se tornou público antes do pedido, em qualquer lugar do mundo.

Carros com ventilador para criar sucção já existiam nos anos 1970. O Chaparral 2J correu em 1970 com esse sistema, e a Brabham venceu um Grande Prêmio de Fórmula 1 em 1978 com o BT46B, conhecido como carro ventilador, que acabou retirado das pistas logo depois. Por isso a ideia de sugar o ar sob o carro faz parte do estado da técnica e nenhuma empresa conseguiria monopolizá-la hoje.

O espaço que sobra para a Tesla está nos detalhes do carro voador, como a combinação dos ventiladores com as saias retráteis ou o controle dos dez propulsores. Publicações especializadas relatam que a empresa depositou um pedido de patente sobre o sistema de sucção em abril de 2025, e esse é exatamente o tipo de proteção que a lei permite, focada na solução concreta.

Patentes abertas na Tesla e segredo industrial na SpaceX

As patentes da Tesla estão abertas desde 2014, quando Elon Musk publicou no blog da empresa que a Tesla não processaria quem usasse suas patentes de boa-fé. O texto ficou conhecido pelo título All Our Patent Are Belong To You e tinha um objetivo claro, acelerar o mercado de carros elétricos como um todo.

Na SpaceX o caminho é o oposto. Em entrevista à revista Wired em 2012, Musk afirmou que a empresa praticamente não tem patentes e que prefere manter suas soluções em segredo, porque uma patente é publicada e ensina a qualquer concorrente como a tecnologia funciona.

Essa escolha tem nome jurídico. Segredo industrial é a informação técnica que a empresa mantém em sigilo e que tem valor justamente por não ser conhecida. No Brasil ele não passa por registro, mas a divulgação ou o uso indevido dessas informações é tratado como crime de concorrência desleal pelo artigo 195 da Lei 9.279/1996.

O carro voador junta os dois mundos, com a engenharia automotiva da Tesla de um lado e a tecnologia de foguete da SpaceX do outro. A decisão sobre o que patentear e o que guardar define o quanto cada inovação fica exposta e por quanto tempo fica protegida. Uma patente de invenção dura 20 anos contados do depósito, pelo artigo 40 da mesma lei, e depois disso vira domínio público. O segredo pode durar para sempre, desde que nunca vaze.

O que o carro voador ensina para empresas brasileiras

A principal lição do carro voador do Elon Musk para quem inova no Brasil é que proteger é uma decisão estratégica tomada antes de mostrar a novidade ao mercado. Uma apresentação pública como a do carro voador, uma feira ou um vídeo nas redes podem colocar a solução no estado da técnica e comprometer um pedido de patente que ainda nem foi feito. A lei brasileira prevê um período de graça de 12 meses para a divulgação feita pelo próprio inventor, no artigo 12, mas esse prazo não vale da mesma forma em todos os países.

Também vale olhar para o próprio negócio como a Tesla olha para o carro voador. Algumas soluções ganham mais valor patenteadas, porque podem ser licenciadas, apresentadas a investidores e defendidas contra cópias. Outras rendem mais como segredo, especialmente processos internos que um concorrente não consegue descobrir só olhando o produto. Abrir as patentes da Tesla foi uma escolha possível porque elas existiam e eram da empresa, e só quem é titular de um direito pode decidir abrir mão dele.

Do carro voador ao produto mais simples, inovar coloca qualquer empresa à frente, e proteger é o que mantém ela lá.

Leia também nosso artigo, sobre: Como Registrar Sua Primeira Patente?

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